quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Quando um Tomé te pisa o pé


Tomé era o sabichão lá da aldeia, criava jogos ao domingo durante o habitual festival saloio. Jogos esses, de resultado manipulado e dinheiro contado. Ora bem, Tomé montava o seu estaminé gracioso, estendia a toalha verde como os grandes mestres e colocava as cartas sobre a mesa. Depois gritava com a sua voz esganiçada de menino atrevido, chamando os pequenos indefesos cuja idade ainda se compreendia dentro da inocência. Lá iam eles, cantarolando e aos saltos, todos numa corrida veloz até à banca do Tomé. Depositavam os poucos tostões roubados dos longos e velhos casacos dos seus pais e esperavam a sorte. Tomé trocava esses tostões por desejos. Tendo em conta a pobreza geral daquela aldeia, os garotos iluminados por Tomé, esgotavam a sua vontade e folia em obter o que mais desejavam. Tudo em vão, mas isto não sabiam eles, pois retomavam o caminho de volta a casa em passos agitados e felizes. Os dias iam passando, os domingos continuavam a acontecer, a vontade era maior e a pobreza constante. Os miúdos continuavam a ir à banca do Tomé, sempre sorridentes, pois acreditavam mesmo que um dia poderiam ter tudo aquilo que pediam. A inconsciência é a melhor amiga da felicidade, por outro lado, apodrecerás com o passar dos anos.

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