terça-feira, 1 de novembro de 2016

Pela primeira vez na minha vida li um conto em que do inicio ao fim chorei e babei-me.
Conto esse da autoria de Luiz Pachecho, chamado Comunidade.
Que filha da puta de obra-prima é aquela? 
Por que é que não li aquilo na escola? 
Em vez dos dentes por baixo da almofada, deviam deixar esta obra e esperar que a vida doesse ainda mais. Como tem de doer, porque és livre.
Orações a ti, Pacheco, em nome do vinho, claro.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Porque é que eu gosto de viver?
Porque ando, porque sinto a calçada nos gémeos, porque esbanjo sorrisos a estranhos sem pensar em nada em troca, viro esquinas a tatear músicas passadas, repito passos em volta e perco-me de queixo erguido, esta condição a que me submeteram, ai, aceito-a insatisfeita e duplico-a em sonhos, de que me resta lamentar quando pode ser tudo maravilhoso?
O momento em que ando, em que adoro viver, perco-me sempre por aí, em arquitectura inadequada, colo-me a vidros desgastados pela falência monetária, em ruínas despropositadas e azulejos de imitação. 
Poderia eu partilhar a minha tristeza melancólica com a felicidade dos outros, mas prefiro guardá-la em mim, pois ela não é mais infeliz que outros.



Doi-me a vida, o que é que queres?
Estou muito cansada, esta merda de subir e descer, de calçar e descalçar,
o rodopiar social, o faz aqui e come ali, a outra, sim, o caralho da outra, o sobrinho do gajo que nem sei se me lembro, nunca me deram a estudar a árvore genealógica, é a mesma merda que chegar a um trabalho e são mais-que-mil, tipos com grandes empresas de merda, eu só associo o nome de cada um deles passado duas semanas, só curto olhar para pessoas assim de lado, snobismo miserável. Que perfeita anormal, a que baixa a cabeça. Pronto, massagem na cabeça, ai caralho, Sou sensível, não toques na nuca que sou ainda mais sensível e depois sou capaz de mudar de humor, viro-me do avesso e digo coisas de miúda adolescente, aquelas merdas, tu sabes, vocês sabem.
Vá, caralho, nem que seja a merda de um pano húmido na cabeça, atenua lá esta realidade, enquanto fazes isso juro que te conto as minhas histórias, mesmo as da janela, sim, sento-me no escuro topando janelas e brinco ao drama, sozinha.
Mas quando percebo que estou sozinha, masturbo-me e durmo.
Otários vocês que vivem em mentiras, tramas e esperanças.

Bebe lá o chá-limpa-merdas, q'eu te digo o que é que chupa-cenas.
Ingere tu, os cereais da moda, q'eu te digo o que seca a vagina, ó filha.
Bebe lá outra vez a merda do galão escaldado, que eu depois te digo o tamanho de nabo.
Vá, caralho, come lá essa cena merdosa.
Por favor, ó vai-te embora.

Fotografia do mano Wolfgang Tillmans

Se soubessem o que é não ter o que comer, não se ririam assim, tão despreocupados!
Se soubessem o que é não ter mais de um euro na carteira, não se armavam em gente!
Se soubessem o que é não ter rigorosamente nada e inventar esquemas para comer e beber, poderiam empregar a palavra miséria!
Se soubessem o que é não ter como ser, enquanto ser social, ir a festas e essas merdas, saberiam que isso traria problemas monetários e perdas de amigos.
Se soubessem o que é pedinchar a entes queridos, a devotos colegas, a ocasiões forçadas, saberiam que o mundo é demasiado cinzento para empréstimos corrompidos por sorrisinhos aqui e acolá.
Quero lá eu saber do mundo.
É que nem de ti, nem de mim, apesar de tudo o resto ser merda.

domingo, 30 de outubro de 2016



JAN FABRE

Como usar a expressão cair do céu.


Hoje acordei com a cara deformada, a pele dos meus lábios secaram até à exaustão e pontos vermelhos pintam abstractamente a minha face.
Vejo o meu rosto de perto e sinto pena, pena daquilo em que me tornei que, ao mesmo tempo, dá-me um gozo tramado. 


George Grosz

Veracidade naquilo em que se diz, menina!
Jamais suplicarás por tamanho nabo enrabado, porque de todas as conas és só mais um buraco.