sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Quando o que queres é o que receias

O Dante subido aos céus é uma ínfima esperança,
do calor declamado dor,
e o sustento numa diversa paleta.
quis eu um dia o mundo de uma outra faceta,
doentes são os outros,
corrompidos na alma, outrora morta e devorada
suplico depressor com acumulação de fulgores
brinca-se à vida neste tempo chuvoso.

fui.

Nunca pensei chegar a isto: cremes no focinho, vinho ao lado, claro, poemas no ouvido porque já me cansam a vista, pés esticados, ardem-me queimaduras pelos braços e cortes pelos dedos. Não queria nada disto quando pensava no futuro, sim, no. Por que motivo ainda focam a vida em certezas? Por que não pode ser tudo como é, aceitar a dúvida, o desespero do erro, do acaso enganado. Foda-se, queimo-me e corto-me, isso é contínuo mas também posso morrer atropelada.


O melhor poema do mundo cantado em ruas mijadas.

Sam, obrigada!


Solidão é uma palavra obscena. É mesmo a única palavra irremediavelmente obscena de que já ouvi falar. Cheira a atropelos, pudor, colhões, e tenho medo. Medo – um homem pode dar por si a cometer crimes sem grandeza. Assassinar, por exemplo. Princípios superlativamente adolescentes. Prefiro a decomposição da pele, uma taberna entre cabeços, o petróleo de candeeiros que projectem sombras imóveis, recantos, pequenos estrumes. E já agora, se me dão licença, um frio de certo modo inculto a bater no vidro da janela, nos ossos, talvez nos ossos, quando se acaba o dinheiro. Mas é humano, bárbaro e humano. Uma espécie de sinfonia entregue ao poder de cada qual, arrecadações da alma, mansas. E dardejante o círculo azul de um copo de aguardente, aguardente, imagine-se, a saltar dentro de si, a subir, a subir, e um homem dizer, imortal: senta-te, copo. Bebe comigo. E ele senta-se e bebe. É remoto, quase no outro lado das trevas. Mas magnífico, oh, tão magnífico. E ainda há quem me fale de escritores, romances, e até de revoluções. Balelas. Quero uma nora que pare o mundo rente ao fogo do inferno. E a água detida, doente, de preferência afogada pela mão de Deus a arder. Nada de riscos. Eis do que falo. Precário, inviolado, entregue ao soalho.

José Amaro Dionísio


quinta-feira, 3 de novembro de 2016


Para desligar mais um dia de trabalho, viajando.


Carl Buchheister
 Dreiformvariation, 1928


Thy Tran

Diz que deixas as coisas pela metade, diz.
Só assim nos podemos completar.