sexta-feira, 4 de novembro de 2016


Quando sabes, já há muito, que não pertences a esta merda, e que com muito esforço nada acontece.
Quando sabes que para muitos és só uma pessoa que não quer crescer mas sentes em ti o mundo e o caralho.
Quando sabes que tentas de tudo para ser reconhecida em normalidade mas que deves evitar falar de música ou de incompatibilidades filosóficas.
Quando, caralho, não tens ninguém no teu dia-a-dia para seres tu mesma.
E eu que não comprei o bilhete para esta peça.
Por favor,
Deixem-me ser livre!!!!!!
Só isso me importa, querendo a vossa liberdade toda.


Window, Grand Hotel, Vittel  -   David Hockney , 1970

Quando o que queres é o que receias

O Dante subido aos céus é uma ínfima esperança,
do calor declamado dor,
e o sustento numa diversa paleta.
quis eu um dia o mundo de uma outra faceta,
doentes são os outros,
corrompidos na alma, outrora morta e devorada
suplico depressor com acumulação de fulgores
brinca-se à vida neste tempo chuvoso.

fui.

Nunca pensei chegar a isto: cremes no focinho, vinho ao lado, claro, poemas no ouvido porque já me cansam a vista, pés esticados, ardem-me queimaduras pelos braços e cortes pelos dedos. Não queria nada disto quando pensava no futuro, sim, no. Por que motivo ainda focam a vida em certezas? Por que não pode ser tudo como é, aceitar a dúvida, o desespero do erro, do acaso enganado. Foda-se, queimo-me e corto-me, isso é contínuo mas também posso morrer atropelada.


O melhor poema do mundo cantado em ruas mijadas.

Sam, obrigada!


Solidão é uma palavra obscena. É mesmo a única palavra irremediavelmente obscena de que já ouvi falar. Cheira a atropelos, pudor, colhões, e tenho medo. Medo – um homem pode dar por si a cometer crimes sem grandeza. Assassinar, por exemplo. Princípios superlativamente adolescentes. Prefiro a decomposição da pele, uma taberna entre cabeços, o petróleo de candeeiros que projectem sombras imóveis, recantos, pequenos estrumes. E já agora, se me dão licença, um frio de certo modo inculto a bater no vidro da janela, nos ossos, talvez nos ossos, quando se acaba o dinheiro. Mas é humano, bárbaro e humano. Uma espécie de sinfonia entregue ao poder de cada qual, arrecadações da alma, mansas. E dardejante o círculo azul de um copo de aguardente, aguardente, imagine-se, a saltar dentro de si, a subir, a subir, e um homem dizer, imortal: senta-te, copo. Bebe comigo. E ele senta-se e bebe. É remoto, quase no outro lado das trevas. Mas magnífico, oh, tão magnífico. E ainda há quem me fale de escritores, romances, e até de revoluções. Balelas. Quero uma nora que pare o mundo rente ao fogo do inferno. E a água detida, doente, de preferência afogada pela mão de Deus a arder. Nada de riscos. Eis do que falo. Precário, inviolado, entregue ao soalho.

José Amaro Dionísio


quinta-feira, 3 de novembro de 2016


Para desligar mais um dia de trabalho, viajando.


Carl Buchheister
 Dreiformvariation, 1928


Thy Tran

Diz que deixas as coisas pela metade, diz.
Só assim nos podemos completar.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Pela primeira vez na minha vida li um conto em que do inicio ao fim chorei e babei-me.
Conto esse da autoria de Luiz Pachecho, chamado Comunidade.
Que filha da puta de obra-prima é aquela? 
Por que é que não li aquilo na escola? 
Em vez dos dentes por baixo da almofada, deviam deixar esta obra e esperar que a vida doesse ainda mais. Como tem de doer, porque és livre.
Orações a ti, Pacheco, em nome do vinho, claro.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Porque é que eu gosto de viver?
Porque ando, porque sinto a calçada nos gémeos, porque esbanjo sorrisos a estranhos sem pensar em nada em troca, viro esquinas a tatear músicas passadas, repito passos em volta e perco-me de queixo erguido, esta condição a que me submeteram, ai, aceito-a insatisfeita e duplico-a em sonhos, de que me resta lamentar quando pode ser tudo maravilhoso?
O momento em que ando, em que adoro viver, perco-me sempre por aí, em arquitectura inadequada, colo-me a vidros desgastados pela falência monetária, em ruínas despropositadas e azulejos de imitação. 
Poderia eu partilhar a minha tristeza melancólica com a felicidade dos outros, mas prefiro guardá-la em mim, pois ela não é mais infeliz que outros.



Doi-me a vida, o que é que queres?
Estou muito cansada, esta merda de subir e descer, de calçar e descalçar,
o rodopiar social, o faz aqui e come ali, a outra, sim, o caralho da outra, o sobrinho do gajo que nem sei se me lembro, nunca me deram a estudar a árvore genealógica, é a mesma merda que chegar a um trabalho e são mais-que-mil, tipos com grandes empresas de merda, eu só associo o nome de cada um deles passado duas semanas, só curto olhar para pessoas assim de lado, snobismo miserável. Que perfeita anormal, a que baixa a cabeça. Pronto, massagem na cabeça, ai caralho, Sou sensível, não toques na nuca que sou ainda mais sensível e depois sou capaz de mudar de humor, viro-me do avesso e digo coisas de miúda adolescente, aquelas merdas, tu sabes, vocês sabem.
Vá, caralho, nem que seja a merda de um pano húmido na cabeça, atenua lá esta realidade, enquanto fazes isso juro que te conto as minhas histórias, mesmo as da janela, sim, sento-me no escuro topando janelas e brinco ao drama, sozinha.
Mas quando percebo que estou sozinha, masturbo-me e durmo.
Otários vocês que vivem em mentiras, tramas e esperanças.

Bebe lá o chá-limpa-merdas, q'eu te digo o que é que chupa-cenas.
Ingere tu, os cereais da moda, q'eu te digo o que seca a vagina, ó filha.
Bebe lá outra vez a merda do galão escaldado, que eu depois te digo o tamanho de nabo.
Vá, caralho, come lá essa cena merdosa.
Por favor, ó vai-te embora.

Fotografia do mano Wolfgang Tillmans

Se soubessem o que é não ter o que comer, não se ririam assim, tão despreocupados!
Se soubessem o que é não ter mais de um euro na carteira, não se armavam em gente!
Se soubessem o que é não ter rigorosamente nada e inventar esquemas para comer e beber, poderiam empregar a palavra miséria!
Se soubessem o que é não ter como ser, enquanto ser social, ir a festas e essas merdas, saberiam que isso traria problemas monetários e perdas de amigos.
Se soubessem o que é pedinchar a entes queridos, a devotos colegas, a ocasiões forçadas, saberiam que o mundo é demasiado cinzento para empréstimos corrompidos por sorrisinhos aqui e acolá.
Quero lá eu saber do mundo.
É que nem de ti, nem de mim, apesar de tudo o resto ser merda.

domingo, 30 de outubro de 2016



JAN FABRE

Como usar a expressão cair do céu.


Hoje acordei com a cara deformada, a pele dos meus lábios secaram até à exaustão e pontos vermelhos pintam abstractamente a minha face.
Vejo o meu rosto de perto e sinto pena, pena daquilo em que me tornei que, ao mesmo tempo, dá-me um gozo tramado. 


George Grosz

Veracidade naquilo em que se diz, menina!
Jamais suplicarás por tamanho nabo enrabado, porque de todas as conas és só mais um buraco.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016


Horas a fio, por ti, meu amor.



David Hockney


MUNCH - On the Waves of Love, 1899



quarta-feira, 19 de outubro de 2016


Quando a Salazar fugiam, avé ao médico Abraão Bensaúde!
Por que é que é preciso ter vergonha, medo, sofrer horrores para ser mãe?
Aqui ignoravam documentos.
Para, dá vida!



Quando tudo se resume a isto, preto e branco.
E eu que me confundi com o cinzento.