sábado, 5 de novembro de 2016

Irrita-me muita coisa, mesmo muita.
Irritam-me aqueles que estão na fila do supermercado e fazem perguntas demasiado idiotas.
Irritam-me uns outros que falam demasiada merda, quando a única coisa que lhes enche a alma é o dia de compras ou a saída ao Lux.
Irrita-me tanta coisa, porra.
Irritam-me aqueles que chegam ao pé de ti e começam a cantar, e ainda dizem 'tás a ver? Curte só.
Irritam-me uns outros, estes principalmente, que pensam que a vida é exactamente aquilo que vivem, sem procurar a existência dela. Vive-se apagado, distraídos com a tecnologia, com raios violeta-ó-chique, bebe-se merda e come-se gourmet. Pegam-se modas já destiladas, Ai que merda, merda, merda, merda e mais merda.
Vivo deslocada e pá, isto dói para caralho.

REPREENSÃO
.Depois de fuzilado
ao levar
o tiro na nuca para acabar
chateou-se
e viu-se obrigado
a explicar
ao major
que comandava o pelotão
que o tinha fuzilado
por favor
preste atenção
e não me obrigue a repetir
a repreensão
na próxima vez
que mandar matar
dê tempo ao morto
para gritar
convicto
um último viva a revolução


Mário-Henrique Leiria



Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada

Canta, rouxinol, canta, não me dês penas
Cresce, girassol, cresce entre açucenas
Afaga-me o corpo todo, se te pertenço
Rasga-me o ventre ardendo em fumo de incenso

Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada

Ai! Como eu te quero! Ai! De madrugada!
Ai! Alma da terra! Ai! Linda, assim deitada!
Ai! Como eu te amo! Ai! Tão sossegada!
Ai! Beijo-te o corpo! Ai! Seara tão desejada!





Olá bom dia, quero uma imperial e:


sexta-feira, 4 de novembro de 2016


Uma vez quis correr muito e caí, larguei o atletismo e continuei a correr.

Fotografia: Doug DuBois

Ninguém me leva a sério.
É um fardo enorme esforçar-me para morrer.
É porque é isso, lutar para desfalecer, contribuir para a sociedade em nada, gratuitamente.
Entendem porque quero morrer? É só uma necessidade de aceleração.
Ninguém toma aquelas merdas para ficar rijo, hirto, mega super-homem?
Eu só quero desligar, deixar de ser, é que ser só por ser cansa.
Estou cansada de mim, de todos, eu ficava já por aqui.
Levas-me a casa?

Setembro2016


Quando sabes, já há muito, que não pertences a esta merda, e que com muito esforço nada acontece.
Quando sabes que para muitos és só uma pessoa que não quer crescer mas sentes em ti o mundo e o caralho.
Quando sabes que tentas de tudo para ser reconhecida em normalidade mas que deves evitar falar de música ou de incompatibilidades filosóficas.
Quando, caralho, não tens ninguém no teu dia-a-dia para seres tu mesma.
E eu que não comprei o bilhete para esta peça.
Por favor,
Deixem-me ser livre!!!!!!
Só isso me importa, querendo a vossa liberdade toda.


Window, Grand Hotel, Vittel  -   David Hockney , 1970