terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Hoje acordei e cuspi para o chão, Este meu hálito a merda anda a atormentar-me. Dispo e visto, visto e dispo, não quero usar nada, digo, NADA. Quero nem sair daqui, deste pequeno monte de estrume a que chamo cama, não quero mesmo nada. A azia humana é uma doença complicada, o perceber que é tudo sistemático, as vozes, os cheiros, as manias e as evidências, não quero nada disto. Vejo-me numa teia solitária, procuro esquecer-me do gigante cagalhão que habita lá fora, que se passeia sorridente com um tremendo vazio lá dentro, pois é só um cagalhão. Não consigo, tenho dito. Ainda ontem vim do Porto e no pouco que lá estive, só lá quis ficar. Amanhã irei à praia e talvez queira lá morar. Não consigo nada. Não consigo gostar de um emprego, não consigo brincar às relações amorosas porque parecem-me sempre ridículas, não consigo deixar de comer carne, ai dobrada mais o feijão e o outro que também leva couves. Não consigo a ponta de um corno e, fosse este mais fálico, até nele me sentava, só para sentir o tempo passar. Que puta de vida a minha, a da bebida e a da sofrida. Mesmo não sabendo porquê ou fingindo porquês. É aquela merda, a..., aquela coisa que nunca se esgota, a..., a insatisfação. Não consigo, e não me chamem de perdida porque isso é mais que tontice, ninguém no seu perfeito juízo define a vida para chamar quer lá o que esses carneiros queiram, Sacanas existenciais, vicio visceral do medo, quantas patas tem o cavalo?

sábado, 12 de novembro de 2016

Hoje saí à rua sem lavar a cara, porra precisava mesmo de ir ao supermercado e a minha motivação era o papel higiénico, que estava mesmo-mesmo a acabar. Saí.
Acabei por devorar as prateleiras todas, é o sono, só pode.
No caminho para casa, carregada-ada-ada, parei aqui no café do lado e pedi uma imperial.
O senhor perguntou-me isto, juro: O que é que a menina faz para ficar tão bonita? (há uns anos atrás eu coraria e diria merda entre dentes), respondi-lhe tão friamente: Acordei e saí. 
Faz de mim convencida ou os olhos dos outros doentes?


sexta-feira, 11 de novembro de 2016


Oscar Gustave Rejlander



A tua vida num reencontro saudoso,
numa epopeia modernizada,
num devastado momento que é determinado pela dor.

Juro que pedi perdão.

domingo, 6 de novembro de 2016


eu ontem tive a impressão 
que deus quis falar comigo
não lhe dei ouvidos


quem sou eu pra falar com deus?
ele que cuide dos seus assuntos
eu cuido dos meus



Paulo Leminski


Oscar Dominguez - Composition, 1950, Oil on canvas

sábado, 5 de novembro de 2016


Current mood:

"Pesa-me, aliás, toda a ideia de ser forçado a um contacto com outrem. Um simples convite para jantar com um amigo me produz uma angústia difícil de definir. A ideia de uma obrigação social qualquer – ir a um enterro, tratar junto de alguém de uma coisa do escritório, ir esperar à estação uma pessoa qualquer, conhecida ou desconhecida –, só essa ideia me estorva os pensamentos de um dia, e às vezes é desde a mesma véspera que me preocupo, e durmo mal, e o caso real, quando se dá, é absolutamente insignificante, não justifica nada; e o caso repete-se e eu não aprendo nunca a aprender.
. 
«Os meus hábitos são os da solidão, que não os dos homens»; não sei se foi Rousseau, se Senancour, o que disse isto. Mas foi qualquer espírito da minha espécie – não poderei talvez dizer da minha raça.”"

Bernardo Soares, O livro do Desassossego